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Breve Notícia Sobre a Trajetória de A Sementeira

Em setembro de 1908 salta do prelo o primeiro número de A Sementeira. Na primeira página, encimado pelo título, “Ao aparecer”, o texto de apresentação não deixava dúvida sobre a missão da “Publicação Mensal Ilustrada – Crítica e Sociología”. O parágrafo esclarecia que:

A Sementeira, aeroplano de idéas, voando por cima de todas as mentiras economicas, politicas e religiosas, na sua missão evangelisadora, através de todos os obstaculos que se lhe deparem, não sairá do fim a que vem destinada: propagar idéas, definir principios, esses principios tantas vezes deturpados e que sempre pairaram por cima de todas as miserias cerebraes de muito propagandista popular, principios defendidos e propagados pelos Reclus, Kropotkine, Grave, Malato, Malatesta, Ibsen, Hamon, etc., princípios que nos conduzirão indubitavelmente a uma sociedade nova, livre e do Bom-Acôrdo.

A publicação nascia lisboeta e seu proprietário e editor era o arsenalista Hilário Marques. Para a execução do projeto gráfico, produção textual e traduções envidam esforços importantes anarquistas da época. Entre eles nos parece útil destacar Neno Vasco, Ismael Pimentel, José Luís, Emílio Costa, Bento Faria, César Porto, Adolfo Lima, Sobral de Campos, Campos Lima, José Carlos de Sousa, Bel-Adam (pseudônimo de Severino de Carvalho) e ainda outros.

No geral não fica difícil perceber que A Sementeira caracteriza-se antes pela divulgação da doutrina anarquista, sua propaganda, com ênfase na interpretação dos fatos nacionais e internacionais analisados por esse prisma. As muitas notas biográficas, bem como as traduções e textos de opinião, conjugam-se no esforço de conferir maior nitidez aos princípios ideológicos do anarquismo; sempre no sentido prático da organização, posta a serviço da redenção social de explorados e oprimidos. Percebe-se também a preocupação de inaugurar formas eficazes de disseminar o espirito de rebeldia, um tipo de “erudição radical”, com o qual se possa contar em momentos de ruptura política e social. Ainda que nos volumes apareçam diferentes demandas, de acordo com os influxos e conjunturas, a linha doutrinária sofre pouca descontinuidade. Ela é, de fato, o elemento de identidade da revista.

Os fatos históricos e as efemérides libertárias são tratados dentro da mesma perspectiva, servindo ao mesmo propósito. Não é diferente no caso da iconografia, sempre presente, em alguns números mais em outros menos, mas invariavelmente afinada com o protocolo geral de transformação social. Como muito bem destaca João Freire, as preferências dos responsáveis pelo conteúdo da revista recaem sobre o comunismo anarquista, mais que pelo individualismo ou sindicalismo. Um fato que, de resto, não nos parece incomum naqueles meios onde prevalecia o cuidado com a disseminação da doutrina.

Entre os teóricos, Errico Malatesta aparece com destaque, principalmente depois do retorno de Neno Vasco a Portugal, em 1911. Além de tradutor incrivelmente erudito, Neno Vasco destaca-se também como pensador original, como um dos mais perspicazes homens de doutrina. Das páginas de A Sementeira, ele orienta os anarquistas na difícil tarefa de atuar diligentemente nos sindicatos. Não descuida um momento sequer da tarefa de inserir socialmente a ideologia anarquista. É o mesmo que anima as colunas de teatro, literatura e o cancioneiro revolucionário. Não é menos responsável pela divulgação de brochuras de propaganda, edições anexas, e indicações de livros publicados que circulam na época. Com Lima da Costa, Neno Vasco deu início a um conjunto de publicações intitulado “A Brochura Social” que, a despeito da importância, ainda que com o apoio de Sobral de Campos e Aurélio Quintanilha, não logrou aportar os recursos materiais necessários que garantissem a sua circulação mais efetiva.

A questão operária é, de muito longe, o assunto mais tratado na revista. Sem descuidar das muitas revoltas nas mais variadas latitudes do globo, ainda assim, as greves e o cotidiano laboral são matérias de destaque. Os editores, todavia, não confundem o movimento operário com sindicalismo; fazem a diferença ao enxergarem o sindicalismo como método, apenas. Ainda que bastante influenciada pelo prestígio do sindicalismo revolucionário, principalmente o francês, fica claro que o papel central de A Sementeira é divulgar o anarquismo. Nesse ponto, ainda que com ênfase na doutrina, ela reflete a dualidade libertária típica ao não dissociar as esferas social e política, ao tornar evidente a necessidade de inserção dos libertários no campo da luta social.

Por tudo isso, não foram poupados nas suas páginas os republicanos e toda a sorte de “trânsfugas” do anarquismo. O grupo de editores, constituído pelas figuras aqui destacadas, parecia não reconhecer limites para o combate ao que representasse perigo ao projeto geral de disseminação do ideário. Ainda que sem a coesão de um grupo de afinidades políticas, articulavam-se perfeitamente bem, desenvolvendo uma dinâmica tal que garantiu a continuidade da publicação; uma “informalidade” que pode bem explicar a aproximação de simpatizantes, com destaque para alguns que se ocuparam dos serviços gráficos, garantiram locais de reuniões e ainda mais.

Sobre a circulação da revista cabe dizer que era vendida ao preço unitário, sendo possível ainda, fazer assinaturas. O número de páginas variou com o tempo, bem como o valor. O público interessado podia encontrar A Sementeira em sindicatos, sedes de grupos anarquistas, em kiosques e no comércio de Lisboa, Porto e Coimbra, principalmente. Havia também subscritores no Brasil, em diferentes partes da África e América. Os editores em Lisboa ajudavam ainda a distribuir outras publicações anarquistas que vinham do Norte, como o caso de A Vida e a A Aurora.

No geral pode-se afirmar que A Sementeira esteve sempre no campo da luta revolucionária e social. Foi assim no 5 de Outubro de 1910, como no caso do Outubro da Rússia soviética, em 1917. Foi, no âmbito da Grande Guerra (1914-1918), essencialmente “antiguerrista” e nesse particular acompanhou a corrente internacional encabeçada por Malatesta. Ainda que sem exclusivismos, destacou em suas páginas a preferência comunista anarquista da maioria dos editores. E por tudo isso marcou indelevelmente o movimento libertário de língua portuguesa.

Alexandre Samis