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Contemporânea

Contemporânea foi obra do arquitecto José Pacheco (1885-1934). Após publicar um número espécime em 1915, revelou-se uma revista com grande regularidade entre os números 1 e 9, de Maio de 1922 a Março de 1923, quando teve por editor o empresário algarvio Agostinho Fernandes. Em 1924 só conheceu uma edição e, no ano seguinte, apenas um suplemento. Os três derradeiros números datam de 1926.

Contemporânea foi uma revista que pretendeu ser contemporânea de si mesma. No artigo de abertura, uma carta aberta “a um esteta”, há um curioso passo que define a direcção pretendida e explica em grande parte o título escolhido: é uma revista, não de futuristas, epíteto negativo sobretudo para a geração que este “esteta” representava, mas de “contemporâneos”, jovens do seu tempo, que queriam promover Portugal. 

O número espécime apresenta-se tripartido, com três capas (a principal de Almada e as outras duas de Jorge Barradas), e vê-se tomado pela guerra, um ano antes da chegada de Portugal à frente aliada.

Além do paralelo óbvio que pode estabelecer-se com o cometa absorvente que foi Orpheu, não é possível ler o número inicial da revista dirigida por José Pacheco sem atender a uma outra publicação singular desse mesmo ano: o Eh Real!, mais panfleto político do que periódico cultural, que sobreviveu ao tempo pela inclusão do artigo de Pessoa intitulado “O Preconceito da Ordem”.

A este propósito, a foto-reportagem sobre a laicização do governo incluída na Contemporânea é curiosa, pois expressa uma postura ideológica diametralmente oposta à de Eh Real!, isto é, claramente favorável à ditadura de Pimenta de Castro (uma das razões externas para o projecto inicial de José Pacheco sair gorado).

Por outro lado, a edição espécime faz recordar, através das suas extensas pranchas de ilustração, o grafismo da influente Ilustração Portuguesa, magazine de variedades, de que “um dos de Orpheu”, António Ferro, foi director em 1921 e 1922. 

De salientar, ainda, a abrangência de temas, apanágio de um periódico em que a mulher foi objecto de atenção regular, focada, por regra, de ângulo oposto ao da perspectiva misógina da mulher no seio do lar.

O periódico reflectiu nas suas páginas, embora timidamente, a “Polémica dos novos”, como ficou conhecida. Em jogo estava a renovação do corpo dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes, que era acusado de se mostrar obsoleto e desajustado da realidade coetânea. A querela centrou-se nas exposições da SNBA, bem como no saneamento de que os artistas da geração mais recente, que seguiam de perto a arte dita “modernista”, estavam a ser alvo. O suplemento de 1925 deu conta, em vários artigos, desta controvérsia.

Do ponto de vista gráfico, Contemporânea é uma revista emblemática da década de 20, o que se mostra extensivo à própria publicidade. No final da primeira série (Junho 1922), é curiosa a afirmação contundente de que a publicidade não era para rasgar visto tratar-se igualmente de arte. Nada mais rigoroso se atendermos à contribuição de Almada Negreiros também no domínio da imagética publicitária: veja-se, por exemplo, o anúncio aos chocolates da Fábrica Suissa, que, assevera o cartaz, “são portugueses”. 

Aliás, o traço de Almada constituiu um dos trunfos principais de José Pacheco, a que se juntou o talento de Bernardo Marques, de Eduardo Viana, de Jorge Barradas, de Stuart Carvalhais (autor de muitas das vinhetas) e do espanhol Vázquez Díaz. No domínio plástico, é ainda de destacar a reprodução de obras de arte, como aconteceu com quadros de Eduardo Malta e esculturas de Diogo Macedo.

Almada Negreiros destacou-se igualmente por textos mordazes (leia-se, a título de exemplo, “O Dinheiro”) orientados para questões sociais numa perspectiva crítica do capital monetário e do seu papel na diferenciação classista. Alguns destes textos mostram-se ainda precursores de um tipo de atitude pós-colonialista, como se pode verificar em “O Diamante”.

Os artigos eminentemente autobiográficos de Mário Sáa constituem igualmente testemunhos do melhor que a revista produziu enquanto crítica social, em textos híbridos e verdadeiramente vanguardistas.

Já a presença de António Ferro em Contemporânea – de que foi o editor no número derradeiro da segunda série – fez-se notar pela sua assiduidade. Em algumas ocasiões, encontrou também abrigo, como aconteceu, por exemplo, na apreciação da estreia da peça Mar Alto. No suplemento de 1925, não só publicou um artigo sobre a nova geração brasileira (na sequência da visita ao Brasil onde apresentou A Idade do Jazz-Band), como viu-se referido numa carta aberta do brasileiro Oswald de Andrade, além de ser elogiado.  

Este suplemento é, aliás, um caso curioso no contexto da revista. Se quisermos uma fotografia instantânea do que se passava na década de 20, encontramo-la nas suas páginas. Ao folhearmos o curto panfleto quase um século depois, dois artigos sobre a época são de destacar. Um sobre a geração nova no Brasil e outro sobre a do lado de cá do Atlântico. É, no fundo, um interlúdio publicado enquanto o novo número não sai (por doença do seu editor, como nos é dito), muito centrado na teorização da nova geração e evocativo dos seus mortos. Pormenor interessante é o de Fernando Pessoa ser omitido no artigo referido, apesar de ter publicado na revista, inclusivamente em francês, e de a peça enumerar exaustivamente os seus companheiros de geração.

Embora se revele verdadeiramente hispanófila na série final, com o subtítulo “Portugal * Ibero-americanismo * Arte”Contemporânea mostrou ser, desde o número inicial, uma revista que partilhava grande simpatia pelas língua e culturas espanholas e se encontrava aberta à colaboração de intelectuais de idioma castelhano, nomeadamente a diplomatas acreditados em Portugal e aos seus próximos, como se verificou com o modernista Ramón Gómez de la Serna. Esta relação luso-hispânica foi estudada com pormenor por António Saéz Delgado em artigo incluído no presente website.

A doença de José Pacheco impediu-o de voltar a editar a revista após 1926, o que não obsta a que o seu espólio faculte muitas pistas acerca das intenções que alimentava a este propósito, confirmadas aliás, pelos materiais textuais e gráficos destinados à décima quarta Contemporânea.

Em qualquer caso, deixou-nos o legado édito e inédito da sua Contemporânea, indispensável para o estudo do modernismo em português de aquém e de além-mar.

Ricardo Marques