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Libertas! Libertas!

O ânimo inconformista que Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Cláudio Basto e Álvaro Pinto decidiram tornar público ao editarem a revista Nova Silva está patente no próprio título escolhido, simultaneamente em desuso e provocatório, como, aliás, se encarregaram de vincar, ao recordarem que "silva" também significava miscelânea literária ou, simplesmente, magazine.

O encontro destes jovens na casa dos vinte anos, destinado a perdurar como reunião geracional, decorreu sob a consigna "libertas", inscrita no título do texto que abriu o mensário e presente na legenda da figura prometaica de grilhetas quebradas que este passou a exibir em cabeçalho a partir da terceira edição, datada de Março de 1907.

A autoridade própria da razão incoercível e indomada, "absolutamente livre de preconceitos", representa o fundamento único a que os criadores do mensário obedeceriam, assim como aqueles que se lhes juntaram, como João Campos Lima, Cristiano de Carvalho e Heliodoro Salgado, entre outros simpatizantes do livre-pensamento e do anarquismo. Victor Hugo, Lev Tolstoi, Piotr Kropotkine, Friedrich Engels, evocados em diferentes ocasiões, facultaram os signos dos autores inspiradores e a constelação das referências universais.

A este ver, não é de estranhar que da leitura das cinco edições de Nova Silva sobressaia a radicalidade da crítica libertária às grandes instituições opressivas e falaciosas como a Igreja, o Estado, o exército e o casamento monogâmico, bem como o sarcasmo contundente a propósito dos costumes e das convenções que moldavam o mesquinho viver quotidiano.

A contracampo, distinguem-se os pressupostos tácitos do entusiasmo que enfunava o espírito de rebelião, que muito excediam o simples exercitar de razões argutas ou a crença vitalista na beleza da vida e a perfeita imutabilidade das suas leis. Logo no curtíssimo texto de apresentação, as certezas íntimas da cultura revolucionária, que fazem muito do interesse da revista, deixam-se observar, por exemplo, na aproximação genérica entre a liberdade, o bem e a justiça.

Da maior importância, é notar, igualmente, que o estado de espírito emancipador e as circunstâncias revolucionárias nunca deixaram, ao longo da curta existência de Nova Silva, de se acompanhar reciprocamente.

O ambiente político criado pela propaganda insurreccional republicana encontra-se assinalado nos retratos de António José de Almeida e de João Chagas que fizeram as capas das duas primeiras edições do periódico.

Enquanto o combate pela educação não autoritária e o acesso democrático à cultura integral levaram a redacção a abrir uma subscrição destinada à criação de uma Escola Livre, a edificar em Coimbra, a resistência à perseguição celerada movida ao pedagogo libertário Francisco Ferrer e a José Nakens originou um movimento de "revolta contra a reacção", chamado à capa do mensário, em desenho de Cristiano Carvalho, e relatado por Leonardo Coimbra, um dos seus promotores principais.

Foram, porém, os acontecimentos vividos no seio da universidade, que conduziram à greve académica, e, de seguida, à ditadura de João Franco, aqueles que sobrelevaram na curta história da revista, pois directores e redactores depressa tomaram o partido dos que ficariam conhecidos como "intransigentes".

Logo no dealbar da crise, a instituição conimbricense é apresentada como "Bastilha dos cérebros" e berço de "espécie de fadistas da ciência, sem consciência e sem pudor", pelo que se vaticinava não só o seu incêndio e arrasamento mas também a dança sobre os escombros sobrantes. Poucos dias volvidos, Guerra Junqueiro, em mensagem enviada a comício de apoio aos estudantes, em que Leonardo e Cortesão discursaram, glosará o tema, ao escrever que "a nossa triste universidade só queimando-a nos daria luz".

Pela pena de Álvaro Pinto, a revista ilustrada apelou directamente à participação na greve. Fê-lo na edição que seria a derradeira, pois, e ainda segundo o futuro director de A Águia, foi a greve académica, ou melhor, o empenho nela colocado pelos estudantes que dirigiam e redigiam a Nova Silva, que "desfez" esta miscelânea dos novos tempos (carta a Jaime Cortesão de 9 de Novembro de 1951).

Luís Andrade