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Sob o signo da crítica

A despeito da vida bastante breve, Princípio constitui-se em referência obrigatória para os que se debruçam sobre o movimento Renascença Portuguesa e a conturbada conjuntura que marcou o final da década de 1920. As quatro edições da revista circularam entre maio e julho de 1930 e, como era prática entre os periódicos dessa natureza, o número inaugural estampou um manifesto programa, não assinado, no qual a publicação foi apresentada como resultado da decisão de um grupo disposto a levar adiante ação nos âmbitos cultural e político.

No que tange à cultura, asseverava-se que a ênfase da revista recairia menos nos artigos especulativos e doutrinários do que na crítica, entendida como capacidade de “distinguir e julgar com precisão e adequadamente”. Na ácida avaliação dos responsáveis, a produção cultural do país se particularizava pela ausência de tal disposição, o que justificaria o protagonismo reservado à crítica, alçada à “atitude fundamental entre todas no domínio da cultura portuguesa”.

No campo da política, por seu turno, a revista postava-se entre os defensores da democracia, considerada o “único método político viável no mundo moderno”, e da orientação republicana, desde que ancorada em “sincero esforço por um pensamento político vivo e dinâmico” e sem perder de vista “as aspirações de todos os homens pela emancipação económica, cultural e espiritual”. Noutros termos, propugnava-se por um regime democrático, comprometido e atento às questões sociais.

Essas declarações iniciais contribuem para esclarecer o sentido do título da revista, escolha nunca inocente, ainda mais no caso das revistas de ideias. Publicação de cultura e política, como explicitava seu subtítulo, e editada sob a responsabilidade da Renascença Portuguesa, movimento que, desde a década de 1910, reunia intelectuais dos mais representativos e comprometidos com a missão de indicar caminhos para o país. Assim, parece pouco provável que o grupo se concebesse como iniciador, em vista de sua articulação a um ativo agrupamento, que acumulava significativa atuação no cenário português. Princípio – no singular, é bom frisar – talvez tivesse a ambição de evidenciar a causa primeira, o preceito que deveria guiar a prática e a ação dos que se engajavam na busca de soluções para os desafios que rondavam a nação, num contexto marcado pelo enfrentamento, no espaço público, de diferentes projetos e propostas. Ser capaz de fazer as escolhas corretas implicava em manter uma atitude crítica e sempre vigilante, a fim de abalizar ou rechaçar as apostas num futuro que se apresentava aberto e, sobretudo, incerto.

O corolário dessa tomada de posição era a condenação da violência e dos extremismos de qualquer tipo, fosse de direita ou de esquerda, em prol do convencimento e do esclarecimento. Não por acaso, o manifesto programa insistia na busca da justiça e da verdade, sempre a partir de argumentos, ou seja, apostava-se na razão e não nas paixões políticas, daí a intenção de persuadir e de sempre atuar de modo “compreensivo e construtivo”. Explicitava-se, portanto, profissão de fé na capacidade transformadora e pedagógica da palavra escrita, empunhada como arma capaz de iluminar e indicar soluções para os graves problemas nacionais. Para que não restassem dúvidas, declarava-se que Princípio era universalista, o que implicava em abraçar o cosmopolitismo, em oposição aos que se congregavam em torno dos ideiais nacionalistas, debate que marcou a Renascença Portuguesa já nos seus primórdios.

Para compreender a origem da revista, cabe lembrar a importância da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, iniciativa de Leonardo Coimbra que não sobreviveu ao regime do Estado Novo. Coimbra exerceu significativa influência em seus discípulos, entre os quais estavam Álvaro Ribeiro e Adolfo Casais Monteiro, dois dos diretores de Princípio, então na casa dos vinte e poucos anos, bem como Manuel Maia Pinto, o terceiro fundador do periódico, um pouco mais velho.

Deve-se notar que, durante o período de circulação de Princípio, a Renascença Portuguesa não dispunha de outro periódico, uma vez que A Águia, principal órgão do movimento, teve o penúltimo número de sua quarta série, relativo aos meses de julho a outubro de 1929, apreendido ainda na gráfica. A edição subsequente estampou a data de novembro-dezembro de 1930 e marcou o encerramento da série. A despeito desse fato, na primeira e na última edição de Princípio, exortava-se o leitor a “ler a revista A Águia“, indício de que se esperava, para breve, a retomada de sua circulação, expectativa que acabou por não se concretizar.

É interessante ressaltar que, na edição de fins de 1930 de A Águia, encontra-se nota anunciando o lançamento “para breve” de Princípio, com detalhes sobre o conteúdo do número inaugural, isso num momento em que a revista já deixara de circular, uma vez que seu último número veio a público em julho do referido ano. Tal circunstância alerta para a distância que poderia existir entre a organização de um número e sua efetiva impressão e distribuição. Nesse caso específico, o informe somente cumpria seu objetivo caso fosse difundido antes de 15 de maio de 1930.

No manifesto programa de Princípio, duas outras revistas, estas em plena atividade, foram evocadas em nome da identidade de afinidades e objetivos: Seara Nova, publicação lisboeta que já se destacava como baluarte na defesa dos ideais democráticos, e Presença, sediada em Coimbra e considerada marco da segunda fase do modernismo português. Dois de seus fundadores, José Régio e João Gaspar Simões, não se furtaram a colaborar com os jovens reunidos em torno de Princípio.

Tania Regina de Luca