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O monumento democrático

O monumento que os homens do pensamento, das ciências e das letras portugueses do século XX coligiram e entreteceram à liberdade, à democracia, ao racionalismo moderno e contemporâneo, à cultura viva e interveniente chama-se Seara Nova.

A revista de doutrina e crítica firmou-se durante as quase cinco décadas de ditadura como o órgão dos insubmissos cultos e intransigentes que tudo sujeitaram ao dever de erguer a voz em nome do saber, da exigência de dignidade e da vontade de equidade.

O cometimento foi necessariamente amplo e capaz de acolher motivações similares embora com perspectivas distintas. Mais do que um programa preciso, a Seara definiu uma atitude, a de que os meios e os fins não podem deixar de identificar-se e de que a força e a grandeza da obra comum residem na pluralidade das opiniões e dos gestos dos homens livres e corajosos que a executam.

Durante longos períodos, a própria possibilidade de um articulista publicar num periódico de ideias com expressão nacional reconhecido pela sua independência e, como tal, pela oposição ao salazarismo, só foi facultada pela firme capacidade de resistência às tribulações que fizeram a vida do quinzenário que havia conhecido as primeiras decisões no mesmo local onde a polícia política viria instalar a sua sede.

Os intelectuais que tomaram a iniciativa de fundar a Empresa de Publicidade Seara Nova e de lhe dar realidade – Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Faria de Vasconcelos, entre outros – distinguiram-se sobretudo pelo apurado sentido do dever cívico e político que conferiam à condição do homem culto. O exílio, o banimento, a prisão, a perseguição profissional e pessoal, os próprios distúrbios mentais, conferiram ao empenhamento público destes homens a aura simbólica que sobrelevou o periódico que publicaram.

Neste grupo, encontrava-se igualmente Luís da Câmara Reys, o herói da gestão dita irresponsável da publicação e da empresa. Obrigado a lidar com a adversidade externa geral, o sobressalto financeiro corrente, a atender a equilíbrios internos complexos, que abriram duas crises profundas na redacção, Câmara Reys mostrou sempre o bom senso necessário para advogar que “se a Seara tivesse sido dirigida com prudência, há muito teria deixado de existir ou de ter uma razão de existir” (n.º 1008, p. 225).

Embora o espírito seareiro apresentasse índole própria, a evolução da revista produziu e reflectiu o trajecto da história intelectual portuguesa do século XX, de que constitui, aliás, a espinha dorsal. Com origem remota n’ A Águia, que fugira das mãos de Teixeira de Pascoaes, para pousar, em Lisboa, a Seara Nova proclamou um ambicioso, mesmo desmedido, programa de regeneração radical, mas não jacobina, da República tanto no editorial de abertura, de autoria de Raul Proença, quanto nos movimentos cívicos em que tomou lugar. Findou alguns anos depois do 25 de Abril, para o qual muito contribuiu, após se ter fechado em visão restritiva da intervenção política e cultural.

De permeio, ficou a trama e a teia da cultura democrática portuguesa novecentista, com os desdobramentos do programa seareiro, a presença crescente, mais ou menos conflituante e ambivalente, da novel facção de matriz marxista, a afirmação de perspectivas teóricas ou de sensibilidade hodiernas, a crítica ao quotidiano asfixiante, a recepção possível da vida cultural europeia e mundial, a intensidade do combate político por ocasião da vitória dos aliados e das eleições presidenciais de 1958. A que muito mais há a acrescentar, desde logo no campo da crítica literária, musical, de artes plásticas e de cinema.

Face às 21 538 peças publicadas e aos mais de 3000 autores que as 31 500 páginas da revista permitem contabilizar, entre 1921 e 1984, a atenção dos investigadores tem-se centrado no período anterior à Ditadura Militar, em que o teor e a ambiguidade, por vezes equívoca, do programa seareiro ganharam vulto. De fora, têm ficado, excepção feita a alguns estudos pioneiros, os restantes quatro ciclos que completam a periodização corrente e consensual do devir seareiro (1927-1939, 1939-1959, 1959-1974, 1974-1984).

Igualmente, a edição de livros e de cadernos em que a Empresa de Publicidade Seara Nova se desdobrou ao longo décadas, que conta com mais de seiscentos títulos, não tem merecido a atenção que o seu alcance cultural e político justificam.

A publicação do Sítio Seara Nova, possível graças ao interesse e ao apoio que o Seminário Livre de História das Ideias recebeu, desde a primeira hora, dos editores actuais do título, pretende contribuir para criação de novas condições para a (re)leitura deste monumento vivo, feito de 1604 números, que ocupa um lugar central no rossio inconformista e livre contemporâneo.

Disponibiliza-se, por um lado, a palavra intacta de todos os que publicaram na revista. Acrescenta-se, por outro lado, o índice dos seus articulistas e outros autores, com ligação directa às peças indexadas. Aditam-se, por fim, compilações de testemunhos, correspondência, documentos e estudos que, não se querendo exaustivas, não deixam de se pretender representativas e de se mostrar, em muitos casos, inéditas.

Aviso: A extensão da colecção da Seara Nova obrigou o programa de publicação de sítios Revistas de Ideias e Cultura a introduzir uma excepção no modelo de tratamento da informação dos periódicos de que se ocupa, na medida em que só os índices de autores e de artigos acompanham a reprodução do teor das edições deste título. A inserção de descritivos, analíticos e índices de conceitos, assuntos, nomes citados, obras citadas e lugares geográficos está acautelada, na base de dados, mas não foi executada por não se terem reunido, ainda, as condições indispensáveis à sua concretização.

Luís Andrade