logo revista



capas


capas


capas


capas


capas


capas


capas


capas



O manifesto da cultura marxista portuguesa

Embora tenha a evocação banal do mito solar de uma nova era por título e haja começado como obra de estudantes universitários ainda menores de idade, a revista Sol Nascente, publicada no Porto a partir de finais de Janeiro de 1937, estava destinada a ganhar relevância na história das ideias contemporâneas portuguesas, ao registar eloquentemente a transição da expectativa do progresso social e político como resultado da difusão das “luzes”, de matriz republicana e libertária, para a mundividência própria da cultura marxista, tida como guia científico da emancipação humana.

O quinzenário de ciência, arte e crítica tornou-se, pois, um periódico representativo das mudanças ideológicas que marcaram os anos finais da década de 1930, na medida em que ocupou lugar cimeiro na recepção, codificação e afirmação nacionais do que designou, com ambiguidade deliberada, por Novo Humanismo e por Neo-Realismo.

“Fundamento”, com que a revista se apresentou, em toda a extensão da capa inaugural, explicitou os propósitos programáticos iniciais: Sol Nascente “orientar-se-á pela mais serena visão crítica (...) tendo como fim contribuir para o elevamento do nível cultural português, juntando os seus esforços aos outros nobres esforços que se afirmam (...) não esquece a frase límpida do nosso Eça: o fim de toda a cultura humana consiste em compreender a Humanidade”.

A execução deste desiderato ecléctico levou os jovens redactores a solicitar colaborações a publicistas já consagrados. Como os seus apelos foram bem acolhidos, o quinzenário ganhou uma qualidade assinalável, patente na publicação de originais dos presencistas José Régio, Alberto de Serpa e Adolfo Casais Monteiro e dos seareiros António Sérgio, Irene Lisboa e Castelo Branco Chaves. As capas, com a reprodução de obras plásticas seleccionadas por Dominguez Alvarez, encarregaram-se de conferir distinção artística à publicação.

Abel Salazar foi a figura tutelar da revista durante o período em que esta foi redigida no Porto. Este histologista de meia idade, republicano e maçon intransigente, que acabara de ser expulso do ensino universitário, e se revelou pintor e desenhador de mérito, surgia aos olhos da generalidade dos redactores recém-universitários como referência e exemplo maiores, mesmo como a personificação viva do ideário científico, crítico e artístico exposto em subtítulo.

O “bom Salazar” foi também o articulista com maior número de peças publicadas, algumas invulgarmente extensas, a tal ponto que as muitas partes de A Crise Europeia conheceram edição autónoma em livro. Tão destacada colaboração fixou-se na difusão de teses neo-positivistas e da caracterologia de Kretschmer, assim como na conversão desta última em fundamento interpretativo do devir histórico da Humanidade e dos tempos contemporâneos, em que a mentalidade esquizotímica, de fundo dogmático e radical, prevaleceria, como a evolução política da Rússia, da Alemanha e da Itália ilustrava.

O empenho posto por Abel Salazar na divulgação apodítica das suas convicções doutrinais suscitou duas polémicas centradas exactamente na pedagogia a que divulgação do saber deveria obedecer, em que Adolfo Casais Monteiro e António Sérgio cesuraram o tom peremptório utilizado.

O êxito cultural de Sol Nascente não foi, porém, acompanhado por uma situação económica estável, mas, antes, por sobressaltos que ganharam proporções suficientemente dramáticas para o proprietário e os directores portuenses aceitarem entregar a redacção do quinzenário aos jovens intelectuais conimbricenses que propuseram dar-lhe continuidade.

A revista passou, então, a ser redigida por universitários comunistas, próximos de parte da direcção e da redacção portuenses, que a metamorfosearam em bandeira e meio de difusão e de afirmação do marxismo e do leninismo na cultura portuguesa. Fernando Pinto Loureiro e Joaquim Namorado encabeçaram o novo ciclo, coadjuvados por Manuel de Azevedo, o factótum da publicação, que transferiu a sua matrícula, no ano escolar de 1938-1939, para a Universidade de Coimbra. Jofre Amaral Nogueira, António Ramos de Almeida, Armando Bacelar, José Augusto da Silva Martins, Fernando Sá Marta, Afonso Ribeiro juntaram-se-lhes como redactores regulares, muitas das vezes desdobrados por vários pseudónimos. António José Soares e António Ramos Ruivo passaram a responder pela ilustração.

O quinzenário adveio, assim, o “manifesto sem desvios, nitidamente orientado num sentido diamático”, como foi preconizado por Jorge Domingues, que dirigia O Diabo, parceiro de imprensa que passava, em Lisboa, por vicissitudes programáticas similares.

A linguagem do materialismo dialéctico e do materialismo histórico, na sua versão canónica estalinista ou na sua tradução filosófica francesa, o conceito de imperialismo como estado superior do capitalismo, a defesa do realismo comprometido nas letras e nas artes, as referências a Gorki e a Romain Rolland, mas também a Lorca e a Portinari, bem como o conjunto das obras literárias e teóricas editadas pelas Éditions Sociales Internationales constituiram o manancial discursivo e emblemático que as páginas do quinzenário passaram a reflectir.

Apesar das circunstâncias censórias adversas, a própria direcção do Sol Nascente celebrou esta inflexão programática de fundo, nomeadamente por ocasião do segundo aniversário do periódico: a revista teria passado, por seu intermédio, de uma orientação imprecisa para uma situação em que “um certo método pela simpatia conquistada depressa conduziu à aceitação de uma doutrina”.

O marxismo conheceu, então, inscrição na vida cultural portuguesa, segundo uma matriz conceptual, argumentativa, simbólica e pragmática suficientemente apelativa e eficaz para estruturar a corrente de pensamento e de acção mais vigorosa da vida cultural portuguesa dos decénios seguintes.

É de recordar, a este propósito, que alguns dos autores que participaram na difusão desta nova visão do mundo, da história e da existência confessaram ter passado a recorrer ao quinzenário como se de um abrégé doutrinário se tratasse, como aconteceu com Arquimedes da Silva Santos e Manuel Campos Lima.

Porém e de acordo com uma célebre tese de Marx, os redactores conimbricenses não cingiram a sua missão ao foro interpretativo, pois o seu desígnio não era estritamente intelectual, mas, antes, prático, já que as finalidades que os animaram eram indissociáveis do imperativo de combate diário ao salazarismo e da defesa do socialismo, desde logo da política interna e externa da URSS.

Ao afirmar conhecer a solução que permitia transformar o mundo, a nova redacção tornou os desígnios revolucionários e os projectos culturais indissociáveis entre si, pelo que a evolução da revista só se deixa decifrar desde que se atenda ao primado da conversão da teoria em prática empenhada, isto é, à pragmática política que presidiu à sua condução.

Para quem acreditava não existir acção revolucionária sem pensamento revolucionário, a difusão do marxismo na sua versão vigente à época representava a tarefa preliminar óbvia, expressa tanto na exposição da ordem discursiva, mítica e ritual própria quanto no combate acerado a concepções com peso específico nos meios cultos. No plano ideológico, os visados foram Raul Proença e António Sérgio, bem como a Seara Nova, de que foram os directores, repudiados como utopistas. No domínio da literatura, o alvo foi José Régio, a tal modo que Sol Nascente transcreveu integralmente uma peça célebre da polémica que Álvaro Cunhal travou com a figura maior da Presença.

Para quem perfilhava a consigna “nacional na forma e socialista no conteúdo”, então corrente, o grande desafio geracional consistia em fomentar uma cultura marxista portuguesa, que desse vida literária e artística a representações concretas e combativas da realidade pátria. O saber próprio e vivido relevaria, assim, sobre a abstração ideológica, sem, contudo, deixar de incorporar as suas dimensões interpretativas e intencionais. A história subsequente do neo-realismo, designação que a cultura marxista portuguesa ganhou nas páginas de O Diabo e de Sol Nascente, atesta o vigor que a orientação encetada conheceu.

Para quem tomava a atitude face à URSS como a pedra de toque que permitia distinguir progressistas de inimigos, a defesa da política externa soviética surgiu como um dever suficientemente intenso para que a própria sobrevivência do quinzenário fosse, em seu nome, definitivamente comprometida. Depois de o director da revista ter visto a suspensão da sua publicação pela Censura levantada face ao compromisso de a cingir a temas culturais, a insistência na justificação da invasão da Finlândia pelo Exército Vermelho, no artigo de abertura da derradeira edição, representa um gesto de combate político directo e temerário, difícil de explicar mesmo quando se tem em consideração a situação precária em que a imprensa clandestina se encontrava.

Por fim, é de sublinhar que a competência demonstrada na divulgação ideológica, a argúcia relevada na constituição de uma corrente cultural nacional e a firmeza de propósitos só podem ser atribuídos ao mérito dos escritores de ideário comunista que redigiram, em Coimbra, o periódico.

Estes intelectuais ganharam então uma autoridade própria, distinta de qualquer beneplácito alheio, confirmada, pouco depois da proibição do Sol Nascente, com a publicação das colecções “Novo Cancioneiro”, “Novos Prosadores” e “Cadernos Azuis”, a que se seguiu a aquisição da revista Vértice, destinada a dar sequência à obra que tinham iniciado no quinzenário apodado, a partir do início de 1938, de “revista do pensamento jovem”.

Luís Andrade